O livro dos abraços
Parece que de uns tempos para cá, o cinza da cidade cobria meus olhos, não me permitindo ver as cores e sabores do dia a dia. Me faltava a sensibilidade para captar belezas cotidianas como as que eu apresento neste blog… e isso era tão frustrante!
Já entrava naquelas fases em que fico cheia de morar nessa cidade frenética e intolerante, quando por acaso numa livraria, um título me fez parar: O livro dos abraços, de Eduardo Galeano.
Abri em uma página aleatória e li um conto que me encantou:
Celebração da fantasia:
Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão.
Subitamente, correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:
- Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima – disse.
- E funciona direito? – perguntei
- Atrasa um pouco – reconheceu.
É claro que comprei o livro, e estou adorando lê-lo. Era o combustível que faltava para me trazer de volta o encantamento com os momentos simples. Definitivamente um abraço nesses dias tão difíceis.

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